domingo, 10 de junho de 2018

Ritos tribais

Corpus Christi - Mais um feriado com mega programação LGBT em São Paulo.

Não deixa de ser engraçado e curioso termos a Marcha Pra Jesus na 5a feira e a Parada do Orgulho LGBT no domingo (com a feira da diversidade também na 5a e a prévia da Caminha das Lésbicas no sábado). Mas é assim que as coisas são e os dois eventos convivem super bem há vários anos (e que assim continue!). 

A festa no estádio da Portuguesa sábado foi incrível! Novamente, alguns fatos que sempre acontecem comigo. Eu não tô muito a fim de ir ao evento, um pouco desanimado, mas faço um esforço pra sair da zona de conforto e me jogar. 

Quase sempre dá certo e o que era uma baixa expectativa se transforma em deslumbre pela sequência dos acontecimentos.
  
Eu estava absolutamente livre, leve e solto nessa festa. Sem peguete, sem crush ou namorado, a pista era um local de infinitas possibilidades. Mesmo que as coisas comecem lentas, devagar, não duvide que uma hora a engrenagem começa a rodar, a velocidade se acelera e a energia começa a ser produzida. 

[já deu pra notar que eu adoro usar metáforas!]

E como disse meu amigo Ìgor: a gente chega e abre a 'barraca do beijo' (inclusive já estamos em mês de festas juninas, mais um motivo!). 

Pra essa transição do nível normal ao nível surreal, obviamente precisa haver algum tipo de catalisador. A maioria dos meus amigos gosta de tomar bala e na sequência um ou dois tiros de key. Eu, particularmente, não me dou muito bem com nenhum deles e prefiro o que chamamos de "Gi" (GHB), que causa efeitos semelhantes ao do álcool: desinibição, coragem e sensualidade. [post futuro sobre aditivos tá aqui no forninho... segura Giovana!] 

Uma tampinha diluída em uma garrafa de gatorade. Essa a receita mágica! E após alguns goles e um tempo pra assimilação, eu sinto uma transformação incrível em mim. É como se surgisse outra pessoa lá dentro e eu, que sou tímido e quieto, fico me sentindo corajoso pra paquerar, abordar as pessoas sem medo de receber um 'não', fico super comunicativo, sensual e carinhoso. O mais legal é que nessa busca você encontra pessoas com energia semelhante e que te retribuem tudo isso na mesma intensidade.


A paquera sempre foi algo complicado pra mim. Se eu não tivesse uma certeza muito grande quanto à reciprocidade do outro, eu não tinha coragem de chegar junto. O medo de receber um 'não' era maior, e até pouco tempo eu tendia a interpretar esse 'não' de alguém como um atestado de menos valia sobre a minha pessoa (já falei sobre isso nesse post aqui). 

Diferente do meu amigo Leandro, um super cara de pau (muita inveja branca dele hehehe) que chega chegando, pode ser de maneira sutil ou de maneira mais incisiva, e que aparentemente não se abate com os vários 'nãos' recebidos. Até porque esses 'nãos' são compensados com muitos 'sims' de caras incríveis. 

O que eu sei é que nesse sábado eu transitei muito bem, com confiança e maestria por muitos corpos, bocas e mentes, abordei quase todo mundo que eu tive vontade (claro, tem uns medalhões carudos que aí é impossível mesmo, a não ser que vc seja, sei lá, o Chris Evans ou o Chay Suede), recebi muitos 'sims' e muita energia boa de caras incríveis e interessantes. Beijei, abracei, dancei...


Eu tava explicando isso pro meu terapeuta com um certo deslumbre [sim, voltei a fazer terapia há uns dois meses e está sendo ótimo - post futuro sobre isso] e ele me saiu com uma explicação bem  interessante. Ele acha que a forma como a sociedade se organiza, em núcleos familiares restritos (pai, mãe e filhos) vai contra a nossa mais primitiva natureza, pois somos assim há muito pouco tempo (em termos de evolução da espécie).

Sempre fomos tribais e o que se passa nessas festas pode ser entendido como um ritual tribal. Pessoas com diversas afinidades dançando juntas, juntando seus corpos suados, descamisados, em uma troca incrível e potente de energia.


E como qualquer ritual, há um certo script, ou roteiro desenhado. Substâncias alucinógenas, modos de abordagem e interação, luzes, adereços, música... ou seja, não deixa de ser um ritual como muitos outros que fazemos ao longo da vida. 


Eu nunca tinha visto as festas por este ângulo, e gostei bastante. 

Conversamos também sobre como estar no meio desse ritual é algo que me faz bem. Meu terapeuta disse que, ao me ver descrever as festas, me imagina como alguém que quer trocar energia com o maior número de pessoas possível e que não vê problema nisso, que não é algo que necessariamente tenha a ver com "sacanagem" (naquele sentido mais moralista do termo). 

E de fato, é assim que me sinto. Me sinto vivo, intenso, potentemente feliz... a energia trocada em um beijo, em um abraço, em  um toque, em um 'encostar' a cabeça no peito de alguém, em sentir a respiração e o suor alheios... tudo isso me faz muito bem. 

E claro, como todo ritual, há um começo, meio e fim (sim, ele acaba e é importante que ele acabe - e que você retome outras coisas na sua vida).

Você pode aprender a se preparar para o ritual para vivê-lo da melhor forma possível e também aprende que há alguns limites a serem respeitados e que é sábio saber a melhor hora de parar (inclusive para poder retornar numa próxima ocasião). 

Fiz tudo isso nessa noite e foi incrível. Cheguei por volta das 20h30 e saí às 04h30 (tá bom, né? kkkk). E como parte do ritual dessas festas, me permito, após, um big sanduba e uma fatia de bolo na melhor padoca de São Paulo, a Galeria dos Pães (inclusive pra compensar o gasto energético de ficar tanto tempo em pé dançando). 

Ao sair da festa, duas reflexões continuaram na minha cabeça.

A 1a, é que acho que preciso ficar um pouco atento, pois em algum momento vejo um leve sinal de compulsividade nesse movimento de beijar todo mundo... é algo que pode ser feito com parcimônia e aproveitando cada momento. Não vale 'beijar por beijar', só pra marcar mais pontos na tabela das irmãs hehehe... you can be a little bit cautious about it, bitch.

A 2a é imaginar se essas práticas que eu tanto gosto seriam compatíveis com um relacionamento. Aberto claro, porque fechado, jamais seria. Acho que pra mim já está claro que dificilmente eu vou conseguir levar por muito tempo um relacionamento monogâmico tradicional (enfrentei um dilema inicial que narrei aqui). E não é uma análise tão elementar, pois mesmo com  um namorado que curta esse esquema, é muito diferente você ir a uma festa dessas sozinho ou acompanhado. A dinâmica tende a ser um pouco diferente.

Temas para continuar pensando... inclusive porque disso decorrem consequências práticas pra mim.

sábado, 31 de março de 2018

Carnaval 2018 - ascensão e queda de um lifestyle

Que tiro foi esse? Que tiro foi esse que tá um arraso. (Jojo Todynho)



O Carnaval de 2018 foi o ápice de um estilo de vida que se estabeleceu em 2016, meio que coincidentemente com o início do blog .  Esse "lifestyle" foi descrito bem objetivamente num dos textos da trilogia carnavalesca de 2017. 


Esse ano a coisa foi ainda mais potente. Nunca beijei tanto na boca, beijei intensamente, incansavelmente, fluidamente, descaradamente, libertinamente - e muitos outros "mentes"... Beijei como se não houvesse amanhã.


Os blocos foram de certa forma como eu imaginava, beijei muita gente interessante, abordei, fui abordado (por meninas inclusive hehehe, e não nego beijo pra ninguém!!!). Reencontrei algumas pessoas que estiveram presentes na minha vida... Paulo e André foram os principais. 

Eu já tinha visto o André no ano novo... nos cumprimentamos cordial e friamente... já não sinto nada próximo ao que senti por ele ano passado... fica só uma pontinha de um mix de raiva e tristeza... mas totalmente administrável. E olhando hoje, tive muitos banquetes após o André que nem justificariam maiores sentimentos. 

Paulo continua super fofo, um sorriso de derrubar quarteirão. Num dos blocos ele veio como quem não quer nada, tinha tomado uma bala e me beijou... eu retribuí, foi gostoso, mas o bom é que eu já estava blindado e não fiquei mal com isso. Beijei outros na frente dele sem nenhuma cerimônia. O fato de não tê-lo visto desde novembro ajudou bastante e esta história está devidamente superada (e quanto mais ela ficar guardadinha, melhor). 

Os blocos foram muito satisfatórios. Com um pouco de cerveja já conseguia relaxar e tinha muita gente aberta a interagir, que é o cenário que mais gosto. Blocos alegres e com muita, mas muita pegação. Não me lembro de um carnaval tão da pegação como o deste ano, inclusive porque nós saímos do Reveillon direto pro Carnaval, pelo curto período entre um feriado e o outro. Aqui mesmo em São Paulo, teve bloco e baile todos os finais de semana, o feriado da cidade (25-01) emendou de quinta a domingo e foi excesso atrás de excesso.

E o estandarte de ouro foi para um carioca, Rafael, com quem fiquei num dos bailes. Moreno, chaveirinho, sorrisão, bocão... passei por ele no meio daquela multidão e joguei um olhar de responsa. Ele correspondeu e eu voltei. Ficamos um tempinho mas eu notei que ele não tava muito a fim de ficar grudadinho ali... saí e fui aprontar em outro canto. 

Mais pro fim do baile reencontrei e aí a coisa rolou com mais intensidade. Eu dei uma intimada de leve nele: "porra, abre esse coração!". Funcionou, pelo menos por aqueles minutos em que ficamos. Dançamos abraçadinhos e até cantei no ouvido dele uma música do Claudinho & Buchecha que eu adoro hahaha (Nosso Sonho). Ele dançou funk pra mim, uma ginga, um rebolado, aquela descida 'até o chão'... a minha porção 'gringo' foi à loucura. Típico menino do Rio!  


Na terça tivemos a pool party... eu não devia ter ido, já estava muito cansado, mas como já tinha me comprometido com meus amigos, acabei indo. Tomei MD e, definitivamente, não me fez  bem, me deixa muito de bad depois... Ao contrário da pool do Reveillon, essa não teve aquela alegria contagiante, choveu e mesmo tendo beijado uns caras interessantes, não saí de lá bem. 

 
                                                                     sim... o meu! :( 

E foi na bad total que embarquei na quarta de volta pra SP e fiquei meio fora de órbita até sexta feira. Esse excesso de beijos e a fricção com a minha barba acabaram me gerando uma alergia perto do queixo (uma espécie de dermatite) e não é algo bacana de se ver, fora que coça pra caramba. Isso me derrubou um pouco o moral.  

Escrevendo hoje, já com um pouco de distanciamento e estando em outro estado de espírito, eu acho que o sentido de continuar a relatar e detalhar essas histórias continua passando pelo exercício da minha liberdade mas também pra evidenciar a capacidade que temos de escolher nossos caminhos e tomar nossas próprias decisões. 

Eu escolhi viver uma vida bem maluca e intensa nesses últimos anos, meio libertina... valeu muito a pena, passei por transformações bem interessantes, me diverti muito, me conheci mais, trabalhei algumas encanações quanto ao meu corpo, conheci gente muita interessante... mas... acho (e digo com todas as ressalvas que um "acho" pode trazer) que talvez, tenha dado pra mim. 

Pra 2018 acho que estou num outro humor, um outro espírito, que parece estar um pouco cansado disso tudo e que quer conhecer coisas novas (coisas que talvez eu nem quisesse entrar em contato antes). Já havia esse desejo sendo gestado, tinha escrito isso em outros textos. Acho que chegou a hora. Relações menos efêmeras, mais duradouras e profundas. Algo que dure mais do que aqueles 5 minutos de paixão avassaladora (quando então já é hora de passar para a próxima, num ritmo de certa forma compulsivo e frenético). 

Quero deixar muito claro que isso aqui não é papo de convertido que, de uma hora pra outra, muda da água pro vinho e renega o passado. Parece mais ser uma mudança de rota... ou uma mudança de hábito; fazer algumas coisas que bem menos frequência. 

O tempo vai passando e tenho percebido que falta pra mim, nos dias de hoje, um projeto de vida pro futuro. Já conquistei muita coisa, mas é fato que, também por isso, alguns ciclos se completaram e eu ainda não sei exatamente o que virá pela frente, há um certo vazio que ainda não foi preenchido e que cabe a mim preencher, de alguma maneira. 

to be continued... [no próximo texto]

Um crush em três atos. Ou sobre como questionar o determinismo.

teste para registro. História em breve. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A vida dos outros

O insight para escrever esse texto veio após assistir no youtube a esta excelente campanha da Latam destinado ao público corporativo (detalhe: acho a empresa muito careira e, desde a fusão,  bem menos consumer-friendly... mas essa campanha, em especial, ganhou meu coração).


Um bate-bola feito pelo Dan Stulbach com Renato Camargo, head de fidelidade do Grupo Pão de Açúcar.

Eu bati o olho no vídeo (daqueles que o youtube te ‘obriga’ a assistir antes dos que você seleciona) e imediatamente achei ele lindo e muito interessante. Uma postura máscula, decidida, risada certeira, aquele sotaque paulistano charmosíssimo, perfil slim, moreno com uma leve barba crescida. Um cara que parece saber muito bem o que quer e para onde está indo.


Claro... vááááárias transferências contidas nessa minha conexão imediata com ele (eu nem o conhecia até então e nem faço idéia da sua orientação).

Qualidades masculinas que vejo nele e que gostaria de ver em mim. Algumas delas eu até vejo, mas não ando passando pelo melhor momento profissional e pessoal e acho que isso faz com que a vida dos outros pareça muito melhor do que a minha e que me veja um pouco diminuído nestas tais qualidades masculinas (que não são exclusivamente masculinas, podem e caem muito bem em mulheres também).

Ele parecia estar muito confortável na carreira. Tinha respostas inteligentes para as perguntas capciosas que lhe eram feitas. Viaja bastante (coisa que eu também gosto de fazer, mesmo que profissionalmente). Mostrava uma alegria imensa e uma garra em relação ao trabalho. Parecia ter um futuro muito bem traçado e uma vida profissional bastante estruturada (o que significa maior probabilidade de saltos ainda maiores e novos desafios).


Eu, do outro lado, ando num momento de estagnação e insatisfação profissional. Tem me faltado prazer no trabalho, uma motivação maior; aquela nos faz acordar todos os dias com mais disposição. Não tenho visto sentido no meu atual trabalho nem visão de futuro. Ainda estou um tanto quanto perdido e desanimado para buscar soluções fora da zona de conforto.

Mas o ponto que me captou inicialmente foi o seguinte.

Quando o via no vídeo, pensei comigo: “nossa, poderia facilmente me apaixonar por esse cara e seria incrível namora-lo” (o fato de não haver uma aliança em qualquer uma das mãos foi um salvo-conduto para me permitir a fantasia, hehe). Instantaneamente me imaginei no apartamento dele, nós deitados na cama dele, numa tarde de domingo, assistindo grudados alguma série da netflix.

Um cara com uma carreira tão estruturada – como se envolver e desenvolver um relacionamento com alguém assim? Eu concluí que a única maneira seria abdicando da minha vida para poder fazer parte da dele.

Óh céus... será que isso é muita piração da minha cabeça?


Claro, são especulações... mas se a imagem que construí a partir da entrevista for correta, trata-se de alguém que tem o 1º, 2º e 3º focos na carreira e uma relação somente seria possível caso esse foco não estivesse ameaçado. O parceiro teria dificuldades em trazer e agregar o seu mundo a outro mundo já tão estruturado, onde não há espaço para novos projetos.

Daí pensei: “será que eu me disporia a abdicar de projetos pessoais e profissionais meus para estar com outra pessoa num relacionamento?” Toparia trocar de trabalho, mudar de cidade, de país ou, pior, estar numa relação sabendo que meus projetos não são os prioritários do casal e que o outro não irá abrir mão dos dele caso seja necessário?

Nos meus últimos namoros, de certa forma, foram os meus namorados que se adaptaram à minha rotina, até porque eu morava sozinho (eles não), então era mais flexível e fácil quando eles estavam na minha casa. Os pais deles não sabiam à época que eles eram gays, então eu quase nem frequentava as casas. Eu morava numa região mais central e não tinha carro (eles tinham), então era mais fácil pra eles me encontrarem ou me buscarem.

Não vou me comprometer com uma resposta objetiva, até porque estamos falando de maneira hipotética; não há nesse momento uma situação específica que me demande uma decisão instantânea. Mas me imaginar em um contexto como esse me causou inicialmente certo desconforto.

Há algum tempo atrás, provavelmente eu seria bem mais taxativo e dissesse de antemão que jamais faria algo assim. Até pela percepção familiar de que aconteceu algo parecido com minha mãe (que teve de ‘abandonar’ a carreira no magistério para ‘criar’ os filhos) e eu não gostaria de repetir isso.

Eu tendia a ver as coisas de maneira mais maniqueísta (nada que alguns anos de análise não ajudassem a melhorar), inclusive na primeira vez que abordei esse tema aqui, em um texto chamado Parceiros egoístas e a renúncia. (tudo bem que ali havia uma situação a justificar a abordagem).


Mas hoje, pensando de forma mais ampla e sem me atrelar a esse gatilho emocional familiar, acho que poderia ponderar e avaliar a possibilidade. Não abortaria de cara um romance por causa disso. E a maneira como o parceiro encara isso também faria toda a diferença. Alguma compensação ou rearranjo sempre é possível para acomodar possíveis renúncias.

Tentar não pensar as situações de maneira maniqueísta também ajuda bastante, pois pressupõe que há um mínimo de sensibilidade e empatia do parceiro ao perceber a situação. Se eu tenho sensibilidade mínima pra lidar com essa situação, por que a pessoa com quem escolhi estar também não poderia ter?


Por fim, não queria que o texto fosse finalizado com um certo ar fatalista e derrotista. Por mais difícil que as coisas possam ser, eu continuo a acreditar no poder transformador e curativo do amor. Ele pode nem sempre vencer [ou 'quase nunca', diriam os mais céticos], mas é uma força que sem dúvida não deve ser ignorada.

E você? Como reagiria? Pensa da mesma forma ou de maneira completamente diferente? Compartilha comigo suas histórias e opiniões!

Bjs no coração!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Preferências

Pera, uva, maça, salada mista
Diz o que você quer
Sem eu dar nenhuma pista
(Xuxa, Salada Mista)

Esse mundo dos solteiros na constante busca de bons encontros tem seus perrengues, claro. 

Como diz meu sábio pai: 'vocês vêem as pingas que eu tomo, mas não vêem os tombos que eu levo!'

Os últimos encontros que tive me ajudaram a formular uma constatação que é importante ser 'martelada' na minha cabeça (pois fala de algo que me soa como verdade), mas ao mesmo tempo me traz angústia.

O fato é que não precisa muito tempo de vida sexual pra gente se dar conta de algumas preferências, gostos, estilos... coisas que nos agradam e coisas que não nos mobilizam.


Às vezes você conhece um cara legal, a transa é boa... mas não rola aquela vontade de ligar no dia seguinte. E não há nenhum motivo aparente para isso (ao contrário de outras situações onde você percebe claramente que não curtiu e não tem qualquer dúvida sobre isso). Me parece que o "conjunto" da pessoa não te agrada a ponto de você querer repetir.


Essa semana conheci um cara muito gente boa, uma graça, sorriso lindo... e nossa conversa foi boa, a transa incrivelmente boa (senti um prazer descomunal)... e com ele, eu claramente fiquei com vontade de ligar no dia seguinte e de convidar pra um segundo encontro. 

Diferente de um cara com quem fiquei há uns 15 dias numa festa. Ficada ótima, conversa boa, pegada boa, beijo bom... mas não deu vontade de ligar no dia seguinte. Simplesmente não deu. 

Essas vontades parecem super intuitivas e espontâneas. Ou elas se manifestam, ou não se manifestam, não tem meio termo e não adianta brigar ou se incomodar quando não surgirem. Não está sob nosso controle. 

Eu me percebi incomodado com essa situação, de aparentemente não haver nada que desabonasse o cara mas ainda assim você não estar a fim de ligar: 'porra, será que o problema sou eu?' pensei.


Estou tentando me conscientizar de que isso deveria ser encarado como algo natural. A probabilidade de desencontros e incompatibilidades é maior [infelizmente]. 

Então, nesse tal mundo dos solteiros na constante busca de bons encontros você terá muito mais desencontros do que encontros. Muito mais 1as fodas e muito menos 2as, 3as e 4as fodas (com a mesma pessoa). Tente encarar isso como algo natural e modele sua expectativa a partir daí.

Afinal, ninguém te prometeu que a felicidade viria fácil e na primeira vez de cara [se prometeu, sinto informar, mentiram pra você].

sábado, 13 de janeiro de 2018

Masculinidades - algumas reflexões

O desenho acima publicado pelo artista Song Inkollo essa semana me trouxe à cabeça alguns questionamentos.

Como comentei em um post no mês passado, Song retrata a vida cotidiana dele e do seu namorado Joe por meio de um projeto artístico chamado "Daily Life of a Gay Couple"

Eu já conheço um pouco da dinâmica do casal a partir do que nos é "revelado" pelas tirinhas de humor que ele publica toda semana. A partir disso, sabemos que Joe é o cara estilo "grandão", forte, musculoso, que curte muito uma maromba, whisky e Star Wars. Song, por sua vez, é o cara mais intelectual, artista, magrelo, sensível e fã de mangás japoneses. 

E o "interessante" é que a partir disso, nós meio que automaticamente tendemos a atribuir algumas "consequências". Você vendo uma foto como esta poderia pensar quase que de maneira instantânea: 'O grandão é o ativo, é forte, destemido e confiante. O magrinho é o passivo, sensível, quase feminino. O grandão domina a relação e o magrinho é como seu servo obediente.'

Já parou pra pensar que nada pode ser mais equivocado do que isso? Já parou pra pensar como ficamos condicionados a alguns modelos mentais que não necessariamente refletem a realidade e que nos limitam enquanto seres humanos?

Na realidade, Joe é o cara que curte ser passivo na relação deles dois e o Song curte ser o ativo. E eles estão muito bem assim, funciona muito bem pros dois, a vida sexual deles parece ser extremamente satisfatória. O Song problematizou isso uma vez numa das tiras, de como é limitante pensar que só porque um cara é grande, forte, musculoso ele necessariamente vai ser ativo (isso vale também para fetiches que muitos tem com caras negros fortes). 

Ele usou uma expressão em inglês bem interessante - bottom shaming - algo como "vergonha por ser passivo", dizendo ser algo muito comum entre os gays e que não entendia porque ser passivo era visto como algo negativo, de demérito para um homem. Para ele, ativo e passivo deveriam ser vistos da mesma forma que outras características e desejos nossos, sem valoração (no que concordo plenamente).


Na hora da transa é o Song quem conduz, quem vai pra cima do Joe e mete forte nele (sim, o cara magrelo, sensível e que faz desenhos). O Joe fica completamente entregue, usufruindo de todo o prazer proporcionado pelo seu dedicado parceiro.  

Por outro lado, o Song também tem seus momentos de entrega, onde fica abraçado com Joe que, com aquele tamanho todo, praticamente "fagocita" o Song, hehehe...


E o Joe, da mesma forma, tem seus momentos de tristeza e não se importa nem um pouco em chorar (e claro, o amado está ao lado para consolá-lo).



O que quero dizer com tudo isso?

Basicamente que precisamos abandonar de uma vez por todas estes estereótipos equivocados do que é ser homem, do que é ser masculino, de que homens não podem ser sensíveis, vulneráveis ou se entregar a um parceiro (seja ele outro homem, uma mulher ou ambos). Isso vale tanto para os homens héteros como para os gays. 

Especialmente numa relação estável como é a deles, já não há mais espaço para este tipo de máscara ou de defesa. Eles confiam um no outro, sabem que podem expressar seus desejos, necessidades, carências e tristezas. 

Puxa, isso é tão importante né? Um parceiro que se preocupa e que busca reconhecer isso no outro... e claro, é importante que a gente também saiba comunicar isso (o outro não tem bola de cristal pra adivinhar, né?).

Voltando à foto em questão, achei bacana por mostrar o Song sendo pego no colo pelo Joe (algo que fazem muito conosco quando somos crianças... e que, a princípio traz um pouco essa sensação de vulnerabilidade, de "estar sendo conduzido" por outrem). Particularmente, me deixa no coração uma mensagem de leveza, de que você pode se entregar a alguém, que pode se sentir cuidado, acolhido e amado [e fazer o mesmo por alguém]. 

Bjs a tod@s!!!!

PS: Se você curte essa discussão e quiser ler um pouco mais sobre ela, pode acessar esses outros textos aqui aqui e aqui

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

a Pool Party de 1o de janeiro

Já tá louca, bebendo
Tão solta, envolvendo, eu tô vendo
Não para, não
(Vai, Malandra. Anitta)

O beijo é uma instituição. E mais. É uma instituição genuinamente brasileira. 

2018 começou me mostrando isso muito claramente, ao som da onipresente "Vai Malandra" (definitivamente a música do Ano Novo e muito provavelmente será também a do Carnaval). 

Este foi o 1o reveillon que passei no Rio de Janeiro. Na verdade, o 2o , mas o 1o foi tão trágico que prefiro nem contabilizar (se um dia tiver ânimo conto essa história em outro post - foi com meu 1o namorado, completamente enrustido e homofóbico internalizado).

Eu e meus amigos já tínhamos vindo de duas festas pesadas e intensas da TW. A virada foi vendo os fogos em Copa, bem tranquilinho. Daí eu estava na praia na manhã do dia 1o, meio que pensativo na vida, no ano que iria começar, em algumas pendências que eu queria que definitivamente ficassem em 2017. 

E tínhamos planejado ir à Pool Party que já é tradicional na cidade, que rola num parque aquático pra lá da Barra (looonge).


Eu confesso que não queria ir. Estava desanimado, cansado e já tinha curtido o bastante nas duas festas anteriores. Então, teoricamente, meus objetivos para esta viagem tinham sido satisfatoriamente atingidos. 

Sabe aquele momento crucial em que vc precisa decidir? Vou ou não vou? E se não for, tem de negociar com os amigos ou até arrumar alguma desculpa. 

O pior é que eu fiquei com um pouco de preguiça de fazer essa negociação. O Mário e o namorado iam ficar chateados e certamente ia ficar um climão. Então eu respirei fundo e pensei: 'vai passar rápido, você dá conta...' e lembrei que, como iríamos de transfer, eu poderia voltar a qualquer hora, saindo à francesa. 

E são aquelas duas lições de que já falei bastante aqui: para cada escolha, há ônus e bônus. E que na grande maioria das vezes, vale a pena arriscar, buscar o 'ainda não conhecido' (ao invés de ficar inerte em um lugar confortável que você já conhece - e onde tende a não acontecer nada de interessante). 

Cheguei tranquilo na pool e de cara já me espantei com o tanto de viado que tinha lá... às vezes é difícil acreditar hehehehe... uma piscina imensa, aquelas hordas de gays de sungas, dançando... no Brasil essa foi a 1a pool que fui. Já tinha ido em uma na Europa, mas bem menor. 

Cheguei também sem expectativas. Já tinha beijado nas festas anteriores o suficiente pro mês inteiro. E não tava procurando. Fiquei quieto com os amigos dançando e bebendo uma cerveja de leve. 

Foi escurecendo, o calor arrefecendo e... incrível... o clima da festa foi mudando... A noite deve exercer alguma influência, porque eu sinto essa mudança de forma muito clara. Eu comecei a entrar 'no espírito' da festa e as coisas começaram a ficar mais interessantes.


Eu percebi isso porque comecei a olhar pros lados num claro movimento de paquera. Olhei pra um loiro alto que parecia gringo, ele ficou retribuindo meus olhares... e um tempo depois, veio falar comigo. 

Eles eram dois, na verdade. Um casal internacional morando em SP (como não os havia conhecido antes? hahaha). Um canadense e um mexicano. E estavam com outros amigos mexicanos que haviam vindo ao Brasil pela 1a vez, incluindo um casal de garotas.

Eu dei um beijo de leve nos dois, mas acho que não empolgou muito. A garota ainda me deu um selinho, depois chegou a namorada e também se apresentou.

Na sequência chegou outro amigo deles (que na verdade eu já tinha visto e batido o olho)... e aí sim... Eu me apresentei, confiante, e comecei a conversar (como eu queria ser sempre assim, confiante e certeiro na abordagem!). Ele retribuiu minha conversa, meu sorriso e minha proximidade... e nos beijamos... um beijo intenso, porém tranquilo e cadenciado.


A partir daí colega, eu meio que fui abduzido para uma bolha de energia, carinho e bem querer com aquele grupo... as meninas eram super carinhosas e amorosas e todos entramos nessa vibe linda de se sentir!

E eu encontrei o meu ponto ideal nessas festas! Estar bem próximo de alguém com possibilidades de algumas entradas laterais de terceiros (incluindo garotas, que também são mto bem vindas). Muitos beijos, abraços, carinho... toda essa energia química circulando pelas pessoas. 



Eu e o mexicano entramos numa conexão muito gostosa. O sorriso dele me derreteu, e curtimos os corpos um do outro. Ficamos numa interação incrível, conversando ora em espanhol ora em inglês, falando dos mais variados assuntos, cantando nossos remixes prediletos, rindo, brincando com as palavras no português e claro, beijando e nos pegando muito! Estava uma noite linda, a lua cheia saudava o ano recém nascido! 

Eu até fiz questão de dizer pra ele que se ele quisesse, não precisava ficar ali comigo, que estava super ok sair e fazer outras coisas. Disse bem assim: "se eu estiver sendo muito grudento, só falar." Mas ele curtiu e preferiu ficar ali comigo. E eu me esmerei nos cuidados com ele.

E de tempos em tempos eu abraçava e beijava as meninas... sentia o carinho e a energia delas... não era necessariamente algo sexual... mas era tão bom quanto.


Quem já tomou aditivos sabe do que eu estou falando... pelo menos comigo, eu fico super carinhoso, amoroso... e quero transbordar esse amor químico pro mundo! Quando você encontra pessoas na mesma vibe, recebe tudo isso também!


E assim somos nós, brasileiros! Como gostamos de beijar! Beijo na bochecha, na testa, no queixo, selinho, bitoca, beijo de língua, beijo grego! Beijo, logo sou brasileiro!

Os meus amigos e outros conhecidos passavam ali pelo grupo, mas eu estava tão envolvido que nem pensava em sair dali... e fiquei com eles até que fossem embora. 

Eu saí tão mexido pela intensidade da experiência... e claro, também pela percepção de que eu poderia não ter vivenciado tudo isso caso tivesse decidido não ir. 

E que bom que tive a possibilidade de refletir sobre isso, pois me sinto preparado para futuramente fazer melhores escolhas quando dilemas como esse surgirem... poder ter mais força pra sair da inércia e da zona de conforto (onde, como já disse, nada acontece). 

Uma experiência tão intensa como essa, OBVIAMENTE, tem um preço a ser pago. Eu fiquei os dias seguintes quase que completamente fora de órbita, deprimido com o fim das festas e com a volta à rotina um tanto quanto massante, me arrastando pra conseguir trabalhar. Meu ciclo de sono se alterou completamente, levei uns 3 dias pra conseguir dormir direito e nesses dias não malhei (para não estressar o corpo ainda mais). 


Tenho sido obrigado a buscar estratégicas de redução de danos para limitar o stress que gero no meu corpo ao ir nestas festas. Estou mais cuidadoso com alimentação e com o número de horas que precisam necessariamente ser dormidas para que o corpo descanse após. 

Por fim, mesmo tendo curtido essa experiência de forma muito intensa, também consegui curtir de maneira mais realista quando comparada à experiência que tive com o Asher. O cara mora no México, então não há a menor possibilidade disso vingar. Mas não deixa de ser bacana porque o que aconteceu ali me dá o parâmetro do que é muito bom, e isso te ajuda a balizar em momentos futuros. Se você já vivenciou o "muito bom"... vale a pena vivenciar algo ruim? ou não tão bom? [apesar de que as novas amizades certamente me renderão uma viagem ao México, ainda esse ano. Os convites já foram feitos!] 

E nunca é tarde pra ser surpreendido num futuro próximo, superando o "muito bom" e indo pro "excelente" e pro "indescritível" hahahaha... eu, depois de todas as histórias que partilho aqui, continuo sendo positivamente surpreendido... o reveillon foi uma evidência robusta disso. Que bom!

A experiência tão deliciosa com o mexicano também deu uma relativizada na minha história com o Asher. Não quero que isso soe de maneira ruim, mas me mostrou que ninguém é insubstituível e que uma experiência incrível que você teve pode sim, se repetir e ser muito boa (não vai ser exatamente igual, talvez nunca se iguale - até por que 'primeiras experiências' são sempre insubstituíveis - a experiência com o Asher foi, pra mim, de certa forma, assim... mas não significa que as que venham na sequência não possam ser incríveis e tão memoráveis quanto).

Agora é começar o ano... tocar os projetos profissionais, não deixar de pensar na evolução da carreira, pensar de forma estratégica a vida... porque ela tá passando e cada momento é precioso. Ao contrário do que dizem, no seu aniversário não é "MAIS um ano de vida"... é "MENOS um ano de vida".

E também estar aberto a novas histórias, ou quem sabe "uma grande" história. Eu quero!

Posso ser uma puta, reconheço sem nenhum problema... mas sou uma puta romântica!

Que continuem os jogos!